Neste momento, até pode parecer que nada vai passar, mas eu sei que vai. Eu sei que pode demorar muito, mas que vou voltar à menina de sempre. Sei que esta angústia de desejar, mas não poder ter, irá. Mas, por enquanto, deixa-me ser assim. Deixa-me fingir que está tudo bem. Deixa-me mentir a mim mesma, por apenas assim conseguir continuar. Deixa-me gritar até que a voz me doa. Deixa-me sorrir a novos desafios, indesejados. Deixa-me parecer feliz. Deixa-me sentir o que sinto. Deixa-me sofrer como sofro. Deixa-me virar as costas ao mundo que criei. Deixa-me estar no fundo do poço. Deixa-me saber que o arrependimento não mata. Deixa-me dizer-te o que sei que não sabes. Deixa-me confiar sem insegurança. Deixa-me pedir sem falar. Deixa-me receber sem dar. Deixa-me sonhar. Deixa-me amar. Deixa-me aproveitar enquanto sou assim. Deixa-me ser optimista dentro do pessimismo. Deixa-me temer pedir ajuda, querendo fazer tudo sozinha, e permanecer num silêncio angustiante. Deixa-me querer mais, exigir o máximo de mim, lutar com garra e depois perder e cair, de novo. Deixa-me fazer de conta que estou mais feliz que nunca, que tudo valerá a pena, que sorrirei de pura felicidade no final. Deixa-me viver o caminho que escolhi percorrer, embatendo em todos os obstáculos sem excepção, para aprender todas as lições que me fazem falta, ainda. Deixa-me iludir-me, deixa-me chorar e sofrer, deixa-me afastar-me, mas deixa-me. E quando eu disser que tudo mudou, não para melhor, não para pior, que mudou apenas, não reajas. E quando eu disser que estou realmente bem, não insistas. Não voltes a perguntar se não estou a dize-lo da boca para fora. Não me faças pensar e repensar, limita-te a ouvir e a assimilar. E quando eu disser que não trocava isto por nada, não me iludas. Não me mostres outros ângulos de visão que sabes que demorei a abandonar. E quando eu disser que agora tudo faz sentido, não me relembres. E quando eu disser que prefiro, não me magoes. E quando eu disser que a desilusão está a ficar para trás, não sorrias. E quando eu disser que a saudade se está a tornar parte do hábito, não desesperes. E quando eu disser que até gosto realmente, não duvides. Deixa-me ser como sou e viver como escolhi. Deixa ser tudo como é. E lembra-te que, depois de me habituar, o difícil é voltar ao mesmo. E quando eu disser que sou realmente feliz, acredita, porque será verdade.
E quando eu disser que essa saudade está a cair no hábito e eu a aprender a viver com ela, não venhas. Não tragas tudo de novo, por favor.