Voltámos a ver-nos e não sei o que senti. Apeteceu-me rir e chorar ao mesmo tempo. Tínhamos algo especial que se evaporou por ação do tempo. Deixámo-nos mutuamente. Ambos sabíamos que iria acabar, mas preferimos aproveitar o presente que agora é passado. O melhor passado. Lembraste? Eu nunca te deixei realmente… E esperava que não o tivesses feito. Apeteceu-me rir por ter percebido que continuas com o mesmo olhar intenso e penetrante quando me olhas nos olhos. Apeteceu-me rir para mostrar o quanto me senti feliz com isso. Senti-me feliz por teres exatamente o mesmo sorriso, igual, sedutor e profundo, verdadeiro. Senti-me feliz por teres olhado para a tua mão em cima da mesa como se pedisse que a minha a aquecesse por momentos, no dia mais quente do ano. Apeteceu-me rir para verificar se a tua gargalhada ainda se mantinha inalterável. Como quando riamos juntos à beira-mar, nas noites quentes de um verão que passou. Como quando caías em cima de mim com a desculpa de já não estares ciente. E sorri por perceber que ninguém te tinha mudado. Mas depois, apeteceu-me chorar por não poder dar-te a mão, nem dizer-te o quanto orgulhosa estava por seres o mesmo. Por não sermos dois sentados numa esplanada, mas três. Por perceber que ela ocupou o lugar que outrora foi meu. Apeteceu-me chorar por ter medo de te abraçar, por não saber se ainda querias, se ainda sentias. Mas sorri. Sorri como se estivesse tudo bem e como se o meu coração não batesse a mil de cada vez que sentia o teu olhar observar-me enquanto eu fingia olhar o mar, concentrada nas ondas. Sorri como se também tivesse seguido em frente, como se não me apetecesse rir e chorar ao mesmo tempo. Sorri por teres sorrido para mim e teres olhado para baixo, como quem pede desculpa. Sabias que o meu sorriso não era o mesmo que o teu, não era o verdadeiro. Mas sorri como quem dizia que não havia problema, que estava tudo bem. E, de seguida sorri ainda mais. Sorri mais por perceber que ainda sabíamos falar por entre olhares e sorrisos. Sorri por saber que ainda percebias exatamente o que eu queria dizer. E voltei a virar a cara. O sorriso manteve-se, mas mudou. Era um sorriso triste. Sim, aquele que quando eu tinha tu corrias para mim e me fazias cócegas, aquele que quando eu tinha tu me atiravas água à cara e fugias de mim, aquele que quando eu tinha tu me atiravas para a relva e me obrigavas a rebolar contigo. Não o esbocei de propósito, mas tinha plena noção que era o que eu tinha estampado na cara. E olhei-te. Precisava de ter a certeza que não fazias nada para mo tirar da cara. E desiludi-me. Nem estavas a dar-me atenção. Desesperei. Desesperei por não ter tido coragem de correr para ti assim que me acenaste para me indicar que era ali que estavas à minha espera. Desesperei por não te ter dado o maior abraço do mundo em vez de ter proferido um simples “Olá”. Desesperei por não ter tido coragem de me sentar ao teu colo e de te dar um beijinho no nariz e esperar pelo meu beijinho na testa. Desesperei por não ter ignorado o terceiro elemento e ter feito o que me ia no pensamento. Por não ter fingido que continuava tudo igual, como já vi muitas pessoas fazerem. No inicio, a outra pessoa (tu) sentir-se-ia estranha e confusa, mas acabaria por entrar na onda. Eu sei que o farias. Disseste que farias tudo por mim. Contudo, em vez disso, fingi que estava contente por ti. Fingi, sim, sabes que fingi, eu não sou pessoa de mostrar que estou mal quando os outros estão bem. Foste tu quem me fez ver isto. E tu estavas bem, estavas muito bem. Este teu verão já não era comigo, já não era meu também. Mas no fim voltei a sorrir. Sorri por te teres despedido com um abraço. Foi o melhor abraço para toda a eternidade, naquele momento, ignorámos que estivéssemos rodeados de pessoas, ignorámos que a nova pessoa da tua vida “voltasse dentro de cinco minutos” e surraste “Eu também não queria nada disto, desculpa, Larela…”. Nesse momento, preferi cheirar o teu perfume, que era o mesmo, aquele que eu escolhi para ti. Nesse momento, preferi ficar calada e voltar a sentir o teu batimento cardíaco junto a mim. Nesse momento, preferi fechar os olhos e retroceder no tempo, preferi dizer “Amo-te, Bipsi” a olhar-te nos olhos. Senti a tua boca a mexer-se, senti o teu sorriso a ser esboçado e imaginei-o, na minha cabeça, conseguia vê-lo perfeitamente, nunca o esqueci, na verdade. Não retorquiste o “Amo-te”, estava na hora de retirar o teu corpo de entre os meus braços, mas ambos ficámos mais um pouco. Não queríamos. O teu nome suou nos meus ouvidos e soube logo que era a minha deixa para ir. E fui. Sem olhar para trás, retirei a minha cabeça do teu ombro e o meu nariz que se encaixava na perfeição com o teu pescoço, deixei o teu tronco sem o suporte dos meus braços e fui. Virei costas e fui embora. “Espera, eu…” Tu?! Tu tens uma vida nova, sem mim… O teu odor seguiu-me até à paragem do autocarro, entrou comigo e sentou-se ao meu lado, no vazio que se fazia sentir. Como era possível?! Coloquei os phones nos ouvidos e todas as músicas me lembravam a tua pessoa. Felizmente, recebi uma chamada que me fez esquecer-te, por instantes. Mas tinhas de voltar, não é? Sempre foste persistente, mas sabias perfeitamente que já me tinha habituado a viver sem ti! Era hora de ir dormir e voltaste. E eu amei que voltasses, confesso... que fosses tu a voltar, em vez de eu. Amei.
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